A Camarilla e a crise no reino das trevas
Uma discussão sobre o sangue nos dentes de um lobo.
Resumo: O artigo abaixo é uma discussão filosófica sobre uma prática comum dentro da política moderna ocidental chamada de “Camarilla”. Em um primeiro momento será discutido o que é a Camarilla de um ponto de vista histórico e depois serão apresentadas as consequências e desdobramentos dessa forma de fazer política. Comentaremos sobre como a Camarilla perdeu poder e o que é a nova era da mask-off politics. Também, no final, há uma breve volta à discussão sobre raposas e leões em Maquiavel.
Palavras-Chave: Camarilla. Reino das Trevas. Democracia. Maquiavel.
[AVISO 1: O presente artigo limita-se a discutir ideias históricas e filosóficas de um ponto de vista puramente especulativo, sem qualquer intenção de adentrar no mundo prático. Todas as vezes onde o verbo “dever” for usado aconselha-se que sempre, em caso de dúvidas, seja interpretado como uma sugestão (should) e não uma ordem (must). O filósofo autor desse artigo respeita a democracia e o estado democrático de direito.]
[AVISO 2: Este artigo NÃO É sobre o RPG de mesa Vampiro: A máscara. Mas poderia ser.]
[AVISO 3: Os comentário desse artigo serão feitos na na live do dia 23/11/2025, caso você queira comentar e ter seu comentário respondido comente nesse artigo antes dessa data. Se tiver muitos comentários não garanto ser capaz de ler todos eles.]
A crise no reino das trevas
1 - Conceito: o que é a camarilla?
A Camarilla (pronuncia-se: Camarilha) é um nome dado a uma prática política que surgiu na Europa no século 18. Ela surge mais precisamente na Espanha durante o reinado de Fernando De Borbón y Saboya (1713-1759), também conhecido como Fernando VI, e é uma expressão que poderia ser traduzida de maneira livre para o português brasileiro como o diminutivo de sala: “salinha” ou “quartinho”.
Ela surge como um termo pejorativo, meio em tom de denúncia, em folhetins da época;1 para designar uma prática do reinado de Fernando VI. Essa prática era a tomada de decisões políticas de maneira secreta, feitas através de reuniões obscuras entre círculos de confidentes do reinado, que muitas vezes, excluíam grupos inteiros dos processos de tomada de decisões.
A prática daquilo que se chamava de La Camarilla é o que poderíamos talvez chamar de política por trás dos panos ou, em um português mais atual, uma “panelinha” secreta entre os amigos do rei.
Ainda que a La Camarilla seja um costume (Sittlichkeit) originário da espanha, ela se espalhou por todo o mundo em maior ou menor grau, encontrando terreno fértil em muitos países como a França, Portugal e o Brasil.
Esse hábito de tomar decisões a partir da Camarilla dava uma vantagem aos amigos do rei e ao rei. A invenção desse modo de fazer política possibilitou o fazer política de um modo mais leve, sem muita violência, na base daquilo que entendemos hoje como “acordão”. O acordão surge como produto gerado por uma determinada Camarilla e, é assim inclusive no Brasil atual.
1.2 - Fundamento: o que possibilita esse costume?
Agora que apresentamos o que é a Camarilla é preciso aprofundar a discussão sobre o que possibilita a existência dela. Assim como uma planta não consegue existir sem a terra, pois ela é a sua base, a Camarilla também não consegue existir sem sua base, seu fundamento.
Sendo bem direto ao ponto:
A Camarilla é criada e depende daquilo que se poderia entender como o reino das trevas.
A Camarilla, para existir, necessita estar escondida, nas sombras, distante de todo o restante da política. É quase como se ela estivesse em uma camada mais profunda das discussões políticas, uma camada meta praxis política. Ela precisa estar escondida, pois se for trazida à luz ela será rapidamente neutralizada.
Entenda que para uma conspiração funcionar, é necessário que as pessoas vítimas da conspiração não saibam que ela existe. Nesse sentido, a Camarilla opera como se fosse um truque de mágica: uma vez que você entende o truque ele passa a imediatamente perder o seu efeito.
É precisamente por isso que a Camarilla existe dentro do reino das trevas e nunca fora dele. O reino das trevas é a condição necessária para o surgimento da Camarilla.
Para acabar com uma conspiração estilo Camarilla, seja ela qual for, é necessário trazer ela para a luz.
2 - O cordel das trevas
A Camarilla surge dentro de uma monarquia espanhola, mas essa prática pode entrar em múltiplos regimes. Especificamente dentro da democracia ela toma uma característica muito peculiar, digna de nota.
Quando pensamos em democracia temos a noção de que para aprovar uma agenda política é necessário articular, ser bom de retórica, convencer os deputados para que eles votem a seu favor. Por trás desse pensamento existe a premissa populista de que a opinião do povo vale.
Mas não é bem assim.
Reflita sobre a seguinte frase:
Qual é o melhor modo possível para fazer algum deputado aprovar algum projeto dentro da democracia?
Vamos as opções:
Seria convencer ele de que o seu projeto é um bom projeto? Não, infelizmente não é assim.
Seria ameaçá-lo de que ele iria perder votos populares se não votar? Não, também não é isso.
Seria criticar o deputado em redes sociais para ele se sentir acuado? Não, não é fácil assim.
Na verdade…
O melhor modo de fazer algum deputado votar conforme o seu interesse é através da chantagem política. É através de puxar o rabo preso do deputado, é através de um cordel.
Um cordel é um nome dado para uma corda fina, flexível, um barbante usado para controlar bonecos de marionete.
Se você quiser fazer algum político votar com você, mais importante do que convencê-lo que é um bom projeto e, mais importante que qualquer outra coisa, é você ter como puxar o cordel dele. Isso vale para todas as democracias, não só a brasileira.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a chantagem geralmente é feita através de uma rede de blackmail sexual.
Funciona assim: você grava o político transando com uma criança de oito anos de idade e, através dessa gravação, você mantêm ele refém da revelação dessas imagens. Foi assim no caso do Lolita Express, do finado Jeferson Epstênio.
No Brasil, contudo, os políticos não são assim tão degenerados então esse tipo de chantagem sexual praticamente não existe aqui no Brasil, não até onde se sabe.
Aqui no Brasil a formação desses cordéis das trevas se dá mais através da corrupção financeira e não da corrupção sexual. No Brasil o fio se forma mais por uma perversão associada à ganância (Mamon) do que a corrupção associada à luxúria (Asmodeus).
No Brasil se você quiser que algum político vote com você você precisa dar dinheiro para ele. É o bom e velho “quem quer rir tem que fazer rir”. Foi assim no mensalão, foi assim no petrolão e em inúmeros outros esquemas republicanos.
Entretanto, nem sempre é assim, as vezes é pior. As vezes os políticos não são habilidosos com a roubalheira e são pegos. Nesse caso eles serão processados e podem ser presos SE condenados. Esse SE é importante porque aí nesse caso, eles viram reféns de quem pode condená-los, no caso o supremo.
Esse vínculo é ainda mais forte que comprar o deputado. Se fossemos ordenar as motivações de consciência de um deputado para aprovar ou não um projeto, por ordem de prioridade, poderíamos talvez organizar mais ou menos assim:
(da prioridade mais alta para a mais baixa)
Blackmail Sexual.
Ameaça de prisão por corrupção (STF).
Retorno financeiro (corrupção bem sucedida).
Retorno eleitoral.
Uma boa pauta, boas razões para o bem comum e o progresso do país.
O ponto que queremos chamar atenção é que a prioridade de número menor sempre tende a vencer a prioridade de número maior. Um 4 ganha de um 5. Um 2 ganha de um 4 e assim por diante. Perceba que ordem de prioridades sai do bem (5) para o mal máximo (1) em um regime democrático.
Dentro de um regime democrático, em uma disputa de prioridades, o bem tende a quase sempre perder em uma disputa direta com o mal. Ademais, quando um mal disputa com outro mal, o mal maior tende a vencer. A democracia, nesse sentido, é um sistema que sempre tende a ir a longo prazo na direção do maligno.
Em outras palavras: não adianta você apresentar uma boa ideia para um político corrupto com o rabo preso se essa ideia vai contra quem está segurando o rabo daquele político. Entre escolher sua boa ideia ou se salvar ele vai escolher se salvar. Os incentivos de prêmio dentro de um regime democrático estão invertidos.
2.1 - As linhas cruzadas
Outro fenômeno mais avançado e curioso ocorre quando vemos os políticos não como indivíduos, mas como grupos de interesses. Dai nesse caso temos um desdobramento do cordel das trevas.
Imagine um político como uma marionete controlada por cordéis.
Agora imagine múltiplos políticos controlados por múltiplos cordéis.
Uma hora ou outra vai chegar um ponto onde as linhas irão se cruzar e, quando isso acontece o movimento de um político passa a influenciar no cordel do outro político.
Isso inviabiliza ainda mais a atuação do político contra o controlador do seu cordel, pois, além de ele sofrer pressão do controlador do cordel dele, ele vai passar também a sofrer a pressão dos outros políticos ao redor.
É uma reação causal lógica. Se você puxar uma rede de pesca de um lado o outro lado da rede vai resistir a se mover, gerando uma força proporcional contrária. É precisamente por isso que é preciso de muita força para mover uma rede.
A essa estrutura de cordéis é o sistema, é o que chamamos de rede das sombras. É muito difícil para um político honesto mover a rede pois a força contrária do peso da rede é muito grande.
Mas existe como mover a rede das sombras, e é precisamente através daquilo que criticamos no começo desse artigo. É possível mover a rede através de um esforço coordenado de múltiplos atores conectados operando nas trevas ou seja, através da Camarilla.
É por isso que é muito mais fácil mover o sistema de dentro em em grupo pequeno organizado (Camarilla) do que de fora (Outsiders), mesmo tendo apoio popular.
3 - O atual embróglio/conundrum
Até essa parte do artigo fizemos uma explicação sobre o funcionamento profundo do regime democrático. Não cabe aqui o mérito de jugar a moral se isso é certo ou errado, só o que estamos fazendo é descrever o processo.
Essa descrição contudo, tem um propósito. Esse propósito é discutir o seguinte problema:
A rede das sombras é movida com facilidade pelos operadores (a Camarilla), mas o que acontece se os operadores não conseguirem mais operar a rede?
O que acontece é que o sistema para.
Conforme apontado no começo desse artigo os operadores possuem uma condição existencial. Essa condição é o reino das trevas. Para uma articulação da Camarilla funcionar ela precisa ser feita às escondidas, longe dos olhos das pessoas. Só que isso não é mais possível.
A tecnologia iluminou a área onde esses operadores habitavam. Eles continuam existindo, mas tem muito menos poder porque o seu poder vinha justamente do fato de eles estarem fora da vista do grande público. Todas as articulações são expostas em questão de minutos ao grande público, e caem por terra devido à pressão popular.
Explicando do modo mais claro possível:
A Camarilla precisa das sombras para operar.
Não há mais sombras.
Logo, a Camarilla não consegue mais operar.
É por isso que o sistema está todo travado e toda tentativa de fazer um “acordão” falhou. Se pensarmos em termos maquiavélicos: as raposas não conseguem mais aplicar seus truques pois todos estão vendo o que elas estão fazendo o tempo todo.
3.1 - A mudança política espiritual (Mask-off politics)
O que sobra quando as raposas não conseguem mais operar o sistema? O que sobra, conforme já mencionamos, é um sistema travado. Mas a coisa não acaba aí.
Entenda que esse sistema travado, por sua vez, vai gerar uma demanda por um novo tipo de operador, afinal o país não pode ficar parado. Esses operadores são os operadores que possuem uma energia espiritual diferente dos operadores antigos, são os operadores de espírito leonino.
(Essa distinção entre raposas e leões, que vem de Maquiavel, já foi tratada em outros momentos então não sejamos repetitivos.)
O que é importante de chamar a atenção é que o Brasil parece estar entrando em uma nova era política, onde a política será feita sem máscaras. Onde o poder irá sempre se manifestar diretamente, fora do reino das sombras.
De 1988 até 2022 o Brasil era controlado por operadores da Camarilla, mas, após essa data, devido a perda da capacidade funcional dos operadores da Camarilla, o Brasil modificou sua fórmula política para uma fórmula onde o poder é operado à luz do dia, sem máscaras.
Ou seja, abandonou-se o soft power e a ilusão de que a opinião do povo importa para uma política voltada ao hard power. Isso foi feito porque a Camarilla não tem mais a capacidade que tinha para controlar o povo, e isso foi feito através da instauração de um regime de exceção schimittiano oligárquico juristocrático, com pitadas de homo sacer agambeniano.
4 - Considerações finais: perspectivas
Por fim, entremos em uma parte que nada tem a ver com o Brasil e que só é uma discussão teórica sobre Maquiavel. Nada que é dito aqui se aplica ao Brasil.
Se estamos diante de um grande enfraquecimento da política das raposas e estamos entrando em uma era da política dos leões cabe aqui, nas considerações finais, tentar responder a pergunta:
Como é possível derrotar leões?
O modo, por assim dizer, “tradicional” de lidar com leões é através de armadilhas feitas por raposas. Mas aí temos um problema - as raposas estão fracas. As táticas das raposas não mais funcionam muito bem no presente momento histórico que estamos, pelos motivos que já explicamos ao longo do artigo.
Então qual é a alternativa? A alternativa são os lobos.
Um lobo é mais fraco que um leão, de um modo que ele, o lobo, sempre irá perder em um confronto direto. Todavia, o lobo possui a vantagem de ser um animal que ataca em bandos.
O modo de derrotar a política leonina é através de uma série de investidas descentralizadas e constantes. Funciona assim:
Um lobo deve tentar morder uma perna do leão. Quando o leão se virar para morder o lobo que estava tentando morder sua perna, esse lobo deve recuar, e outro lobo deve, imediatamente, tentar morder a outra perna do leão. O leão então, será forçado a virar para o outro lado, e vai tentar atacar o novo lobo, desistindo assim do primeiro lobo. Quando o leão for tentar atacar esse novo lobo esse lobo, por sua vez, deve recuar e deve surgir um terceiro lobo, dessa vez tentando morder as costas do leão. O leão então abandonará o segundo lobo para tentar morder o terceiro e assim sucessivamente.
Desse ataque descentralizado pode acontecer duas coisas. Na melhor hipóteses o leão será derrotado e, na pior delas, ele ficará em um constante estado defensivo de preocupações, paralisado pelas constantes ameaças de ataques.
Ou o inimigo será derrotado ou ele será imobilizado.
É importante sempre ter prudência e buscar preservar ao máximo possível a saúde do bando de lobos nesse processo que estamos descrevendo e ele nunca é livre de risco, mas, na medida do possível, entenda que:
Toda e qualquer oportunidade possível de atacar e recuar deve ser aproveitada.
Toda e qualquer oportunidade de impedir o movimento do leão deve ser aproveitada.
Toda e qualquer oportunidade de negar a vitória do leão deve ser usada pelos lobos. Deve ser negado a ele a oportunidade de puxar a corda.
E, por fim, quando o leão apresentar fraqueza, e ele vai apresentar, ele deve ser devorado pelo lobos.
O leão deve estar sempre com medo e sempre na iminência de ser atacado por algum lobo do bando. O leão deve estar em um constante estado de alerta e terror psicológico. Ele deve estar sempre ameaçado de perder poder, tendo sempre que usar a sua força para se manter no poder e, cada vez que ele precisar usar a força ele irá aos poucos se desgastando.
Derrota-se um leão assim como derrota-se um Tigre. Fazendo-o cansar e sem ser destruído por ele no processo. (A^~B→C)
Essa verdade dita por Julius Evola, na Itália de 1961, em um contexto de crítica à modernidade, talvez tenha alguma serventia nos tempos atuais, na era de luta contra leões.
O leão é um animal muito forte? Sim, muito. Mas uma hora o desgaste pega e até a força do leão mais forte de todos acaba. É assim que se derrota um leão sem precisar usar as raposas.
Não é sobre bater de frente com um leão, é sobre inteligentemente desgastá-lo até que a sua força acabe.
Note que bem colocado esse ponto e vírgula.











Ótimo artigo Homero, um dos pontos em você se diferencia é em trazer conceitos pouco conhecidos no Brasil ou então uma perspectiva única e individual sobre os conceitos já conhecidos (em oposição aos intelectuais vendedores de curso que vemos por ai).
Falando em Julius Evola, ontem soltamos um artigo falando sobre sua vida e alguns dos conceitos principais de sua filosofia (https://institutobaldur.substack.com/p/o-legado-de-julius-evola).
Obrigado pelo artigo, Homero!
Homero, já me antecipando ao vídeo, devo pedir-lhe por uma análise do recém formado partido do mbl, o missão. Claro, caso disponha de tempo.
As ideias são aquelas boas de sempre, mas as pessoas é que eu tenho os dois pés atrás, e como tudo nesse país, creio ser o correto a se fazer.
A análise foi boa, pode render ainda muitas outras concatenadas e relacionadas com esees temas vampirescos.
Um abraço e a paz de Cristo !